A besta, filme de Bertrand Bonello

"Para dar um sentido positivo à ideia de um pressentimento do que ainda não existe, é preciso mostrar como o que não existe já atua sob outra forma que a de sua existência” (Deleuze e Guattari)
Tudo parece indicar que estamos diante de mais um filme clichê sobre um futuro desumanizante em que máquinas sugariam nossos sentimentos mais profundos para nos purificar num mundo opressivo que não admite sentimentos. Seria um filme cheio de críticas sociais, prato preferido para ser degustado pela crítica inteligente e seu vocabulário enfeitado com as características etiquetas: surreal, distópico, obtudo, kafkiano, fantástico... Mas trata-se realmente disso? Talvez sim, mas algo parece ultrapassar esses clichês. Vejamos.
Um primeiro aspecto é a referência a Henry James, o escritor do acontecimento. uma segunda referência é a Madame Butterfly, a ópera de Puccini, mas guardemos para mais tarde essa segunda referência.
Em a Fera na selva de James, há um casal que se destaca num ambiente de pessoas com suas posturas comuns. O casal se destaca por que algo incomum se passa entre os dois, como se uma atmosfera os reunisse numa cumplicidade quase esquecida. No texto, aprendemos que o rapaz revelou, no passado, um segredo, segredo que não é o de algo a ser retomado, mas por vir, uma memória do futuro. Um pressentimento que faz com que ambos vivam seu passado e seu presente em vista do acontecimento futuro terrível que foi pressentido. Eis a ideia: "Para dar um sentido positivo à ideia de um pressentimento do que ainda não existe, é preciso mostrar como o que não existe já atua sob outra forma que a de sua existência”
No filme, é a cena do início do século XX que destaca um casal em meio às posturas quase caricatas das pessoas, comportamentos triviais, conversas banais, gestos artificialidades (mesmo as obras de arte são puros clichês). O casal compartilha o pressentimento do acontecimento terrível, mas dessa vez, foi a mulher que teve o pressentimento e que orientou sua vida na espreita da efetuação da previsão. É uma mulher casada, mas o casamento se revela como uma espécie de artimanha para se orientar em relação ao acontecimento, pois há uma relação cordial entre ela e o marido, mas não amor, o que acabamos por saber pela carta que ela deixa para o marido e que se superpõe à cena do verdadeiro amor. Por sinal, como bom homem do tempo, o marido fabrica bonecas que podem ser restauradas e retomar suas posturas comuns, o rosto neutro que a mulher se esforça comicamente em reproduzir (ela, que enquanto pianista reconhecida, tem dificuldades em entender o que pretende Schoemberg com uma música aparentemente... neutra). Mas o momento chega junto com o anúncio da tragédia da enchente em Paris, é nesse momento que ocorre a renúncia ao casamento revelando que ela escolheu se lançar na aventura e nos riscos pressentidos. A enchente terrível, a morte do casal por afogamento na tentativa de fuga do incêndio na fábrica de bonecas nada são diante do encontro dos amantes (as bonecas queimam e seus rostos se desfiguram). A bela cena de amor no contato das mãos revela a efetuação do pressentimento, já não há como escapar, é tarde demais...
Importante é o papel da vidente que vê o que é realmente o trágico do encontro, seria somente a morte do casal que permitiria a entrada em cena da besta? A vidente parece ter visto algo mais forte.
No tempo atual, dois jovens perdidos no mundo das posturas e do consumo. As cenas clichês da propaganda, os gestos guiados num cenário qualquer, a vida em torno de luxo vazio, carros, joias, drogas, vasos chineses... (a casa em que a mulher trabalha beira o cômico da infantilização consumista) um clima de luzes frias traz renúncia e novas submissões. Na tv, uma canção antiga de eterno amor insiste e afeta a mulher a convocando para a entrega que ela buscava evitar na trivialidade de suas ocupações. Dessa vez o rapaz explicita o temor do pressentimento, o temor do encontro que sabe será fatal e desenvolve uma reatividade assassina contra qualquer possibilidade de efetuaçāo. Já ela, envolta no luxo embonecado da casa em que trabalha afetada pela canção, no dia de um temido terremoto, acolhe o rapaz sem medo da entrega. Ela abre a porta: "não tenha medo”. A imagem hesita em prosseguir, suspense diante da porta que finalmente se abre e permite o encontro. O amor, então, parece se efetuar num beijo, mas é borrado na imagem. Algo se passou entre as mãos, já não havia como escapar, era tarde demais...
Seria o terremoto o trágico do acontecimento? Seria a morte dela assassinada pelo rapaz, ato que só sabemos ter ocorrido quando ela recorda no futuro (?)a efetuaçāo decisiva do acontecimento? Novamente a vidente que dessa vez surge em meio ao vendaval das propagandas da internet parece ver outra coisa.
Num tempo fora da cronologia, um futuro (?) fora da passagem do tempo e revelado pelas imagens deslocadas de qualquer referência histórica ou de clichês distópicos, tempo de puro pensamento, ou o tempo de mergulho nas profundezas (podemos pensar que os outros tempos nada mais são do que a visão desse tempo complicado que se derramou em passados e presentes). Agora, o mesmo casal dos tempos distribuídos se oferece a uma experiência, a prova da máquina. Acompanhamos a experiência da jovem diante de todas essas visões que se desdobraram nos tempos das etapas já vistas. Como ela poderia ver o pressentimento atualizado, efetuado? É o papel da máquina que realiza o que fora anunciado pela vidente da internet, a capacidade de revelar o acontecimento, de desdobrar a pura potência que reúne em si as dimensões do tempo, atualizar no tempo empírico a virtualidade e, em vez de desumanizar, lançar a prova: quem estaria à altura de afirmar a vida, o amor, em todo sua força, sem esquiva, sem negação com todos os riscos inclusive o da extrema solidão? A mulher não se deixa enfraquecer, chega mesmo a contaminar a boneca que a acompanha. Nesse tempo, ela se reencontra com o rapaz, dele não acompanhamos a experiência de vidência, apenas sabemos que passa por ela no mesmo momento que a jovem que a cada encontro com ele tenta trazê-lo de volta já que ele parece sempre distante, por demais envolvido nas posturas das bonecas. Num desses encontros ela lhe indica a ópera de a Puccini, a segunda referência. (Em Madame Butterfly há uma jovem japonesa que se casa com seu amado oficial americano, mas ele parte para os EUA, dizendo que retornará um dia. Depois de longa espera, ela, com o filho que ele desconhece, se enfeita para o retorno do amado, mas ele se casou nos EUA e retorna com a esposa, vendo que sempre esteve só, ela se mata.)
Depois de passar pela prova, o casal se vê diante do momento decisivo da escolha. A boate se esvaziou dos clichês, o barman boneco que oferece bebidas prontas de acordo com os gestos programados dos clientes, parece antever que ela não se entregou ao medo, pois ela não se entusiasma com a bebida que já estava pronta para ela. Eis o duelo final: ele e ela vão seguir o comum evitando sofrimentos, apagando as dores, ou vão afirmar tudo o que o acontecimento oferece, serão dignos do acontecimento em todas as suas consequências? Não se trata de reviver a memória e se ressentir do sofrimento, mas de afirmar o futuro e as potências da vida, mas sim de querer o acontecimento? Sabemos pelas lágrimas diante da experiência final na máquina que ela afirmou a vida, afirmou o amor infinitamente em toda a sua efetividade em todo e qualquer tempo com todos os seus riscos, o amor impessoal que sacrifica sujeitos e indivíduos, amor fati, ao querer não a efetivação do acontecimento, mas seu sentido, ao sentir que é preciso ocupar o lugar, ser digna do acontecimento. Menos de 1% passam pela prova sem se tornarem bonecos que vivem sem sofrimentos. Então, decidida ela abraça o seu amado... Mas, se ela afirmou, ele negou, permaneceu excessivamente pessoal, demasiado humano (a máquina humaniza, não o contrário!), fechado numa subjetividade refratária ao acontecimento... Eis, então, o que se revela: ela está e sempre esteve só. Sim, o acontecimento já havia sempre, em todos os tempos, sido cumprido sem que fosse percebido (talvez por isso, muitos pensem que em A fera na selva nada acontece), ela se vê eternamente só como a japonesa de Butterfly e a mulher do texto de James... A fera que espreitava se revela, dá o seu bote...




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