Weerasethakul: Síndromes e um século
- Fernando Maia

- 20 de mai. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de nov. de 2020
Weerasethakul é o nome do cineasta tailandês que fez o belo Síndromes e um século, vejamos como as flutuações harmônicas funcionam aí.
O filme começa com uma entrevista trivial num hospital de campo, sons e cores interferem no diálogo. Inicialmente vemos apenas a personagem que responde. A partir daí se desdobra uma orientação de mundo.
No consultório médico: um Monge (filmado de costas) se diz possuído pelas galinhas que com ele se comunicam em sonho, por isso ele criou asas e caiu da cama enquanto dormia machucando as pernas. Elas buscam equilibrar a violência que ele cometera com elas quando jovem anunciando que é preciso comer menos frango para amenizar o carma. A médica ouve e concorda, apesar de apresentar outros motivos. Fica surpresa ao ganhar ervas que, segundo o paciente, servirão para acabar com as preocupações excessivas que ela tem com dinheiro, ela que acabara de, transtornada, cobrar uma dívida ao telefone.
Os espaços sempre compostos com o som das aves, dos insetos, dos ventos. O verde dos jardins invade os interiores por amplas janelas e, no reflexo dessas, o humano se compõe imediatamente com a paisagem não humana. Difícil pensar que poderia existir um par natureza/cultura bem delimitado.
No dentista: o monge dj e o dentista cantor de música tradicional conversam numa consulta repleta das surpresas propiciadas pelos encontros de mundos cruzados.
Levados por uma orquídea selvagem, testemunhamos encontros amorosos, encontramos lugares de poder e aprendemos sobre o eclipse que poderia enriquecer ou levar à morte dependendo do modo como comporíamos com as riquezas que ele nos permitia tocar.
E a jovem doente das pernas passeia na companhia dos cães, do céu, do sol... misturas numa paisagem plena.
No diálogo final monge e dentista se encontram na noite iluminada pela lua e sonorizada pelos insetos: talvez você seja a encarnação de meu falecido irmão, diz o dentista. Não, eu não era humano em minha vida anterior. Após a oferenda das canções de amor por parte do dentista, o monge o chama, mas desaparece no labirinto do hospital (seria o irmão conciliado?)
Em toda paisagem, inclusive nas próprias vidas passadas homens e não-humanos em mistura em preensões, em nexus, em sociedades.
Fim da primeira parte, o que só descobrimos porque o diálogo inicial se repete quase literalmente, mas agora vemos o rosto da entrevistadora enquanto antes víamos o rosto do entrevistado, mas a paisagem agora é branca, o hospital da cidade e o som são exclusivamente o do mundo interno, do homem e das máquinas que ainda o obedecem. Microvariações nas filmagem e nos diálogos (alguns falarão de espelhamento, mas o espelho é muito infiel ao que reflete, revela um mundo totalmente diferente, constituído por outras interferências. Caleidoscópio seria mais conveniente do que espelho) produzem uma flutuação em relação à primeira parte e nos encontramos diante de outra arquitetura, outros sons, outras luzes, outras medicinas... ainda é possível falar do mesmo homem, da mesma natureza daqueles da primeira parte? Quanta diferença entre o que se possui e o modo como se mantém.
Eis algumas flutuações em microvariações: espaços internos brancos, edifícios trespassam a transparência dos vidros
No consultório: o médico (um homem visto de costas) ri da história das galinhas e conclui que foi apenas um sonho do monge, uma alimentação saudável pode livrar o monge dessas confusões mentais. Nada de possessão por galinhas, apenas uma síndrome do pânico produzida pela imaginação. O monge receita raízes para eliminar pensamentos tolos do cérebro e nos fazer mais gentis, ajudam também a reduzir a memória, mas esse novo médico é precavido (ele não riu dos sintomas verdadeiros) e sabe que a realidade não pode se confundir com a crença.
No dentista, consultório ascético, nenhuma palavra trocada entre médico e paciente monge afastados por um certo constrangimento por habitarem mundos tão distantes..., a espera, o tempo morto, é o da tarefa a cumprir, a ser preenchido ansiosamente pela ação.
O espaço externo se preenche de estátuas humanas vistas de baixo para cima que se sobrepõem às divindades vistas de frente, quando olhamos para o céu buscando o infinito, encontramos apenas o homem. Um som grave acompanha a cena.
No porão, enfim, sem exterior e sem janelas encontramos o jovem que joga tênis com as paredes. Ele foi, é e será humano em todas as encarnações, em breve será examinado pela médica que usa um "truque" de massagem no chacra para cuidar dele, afinal ele poderia ainda acreditar nessas crenças populares. E, engolidos pelas suas vidas tão importantes, os médicos socializam no álcool, para uma paisagem cada vez mais esvaziada, o álcool cria um território.
Fotos de espaços urbanos tomados por prédios em construção anunciam possíveis encontros.
Por fim numa sequência de espaços internos e personagens solitários encontramos a jovem doente das pernas que agora caminha no corredor branco do porão sob o ruído dos motores. O homem só com sua sabedoria e no domínio das máquinas parece ter se cansado de si mesmo.
Mas quando parece que estamos diante do velho esquema denuncista e de uma proposta retorno à velha natureza, eis que o diretor mostra sua inocência, no sentido de Ozu que não rejeita um novo Japão em nome de um verdadeiro Japão, mas constrói uma paisagem "japonesa" com um vermelho coca-cola.
Eis a terceira parte quase imperceptível: Uma tromba mecânica, que rima com o eclipse apresentado na primeira parte, uma espécie de buraco negro nos suga, mas não desemboca no vazio, anuncia um mundo por vir. Por meio de rápidos recortes de cenas urbanas cotidianas, algo diferente surge não como síntese das partes anteriores, das paisagens que já não têm consistência, mas como uma nova dimensão sendo criada. Não se trata de um respeito que os homens devem ter para com as coisas, mas uma mudança no campo de jogo que faz com que os termos mudem de sentido, mudem de natureza. Tendo passado pelo barulho e pelo cansaço extremo, um novo silêncio e uma nova música emergem das tonalidades fatigadas. Talvez distantes das grandes questões abstratas caras ao pensamento médio, mas pertencendo ao concreto mais simples como um novo estar-junto que produz ramificações imprevisíveis entre estratos até então sólidos e incompossíveis. Algo aí se compõe, para o melhor ou para o pior, diante do qual é preciso estarmos atentos, mas desarmados




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